Ilustrações Narradas // Floresta Líquida

Floresta Líquida

alt

Num movimento de descolagem relativamente ao chão sobe um, depois pousa mais adiante e sobe outro, numa ultrapassagem de um lanço só. Avança. Avança. Pé ante pé o corpo diminui no tamanho, nos decibéis bloqueados na garganta, no dilatar das pupilas tão negras quanto o negro que vem. O corpo entra no escuro na medida exata com que o escuro entra no corpo. A árvore aumenta em altura na proporção exata com que diminui o tamanho do corpo. O chão. O peito miniatura, agora muito apertado, pede chão. Uma mancha branca vem de cima para baixo e quer fazer tombar o corpo, as pálpebras cedem, intermitentemente adivinham vultos e a floresta não é mais vertical. O sangue circula cada vez mais depressa e não se ouve mais o estalar das folhas secas sob os pés, nem a respiração acelerada que afoga, a cabeça surda muda quer a derrota pelo medo. A floresta é escura. As mãos são pequenas e insuficientes a vida inteira. Na escola ninguém o ensinou a trepar às árvores como nos filmes, pensa, deitado. Não há projetores, luzes, câmara, ação. O medo aproxima-se, descola-se das sombras das árvores, deita-se sobre o corpo e entra nele como um líquido que enche um recipiente vazio. A floresta vai ser sempre vertical, como um cálice de vinho quando beber é uma fuga às coisas que não são líquidas. Ele levanta-se e segue ereto em ultrapassagens sucessivas dos dois pés, o medo, o medo, a cada passo o medo a equilibrar-se para não transbordar o corpo.

Narrativa de Filipa Godinho.
Ilustração de Filipa Viana

comments powered by Disqus