Ilustrações Narradas // Eu vi

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Eu Vi

"Eu vi. Sucessivas pedras que organizavam sítios onde pôr os pés. Primeiro as mãos, depois os joelhos, depois o equilíbrio bípede e os dedos das mãos muito abertos no ar num abraço aos primeiros passos. Nesse tempo cair era vencer a vertigem de 35 cm de pernas... Hoje não é opção. Há outra queda maior em curso, longa, muda, quase líquida como a chuva quando dói um inverno interior. Os tacos do soalho deste chão fazem-se das telhas da casa de ontem. Empilham-se vidas como roupas dobradas num armário e vão deixando todas de servir. Braços e pernas compridos demais e nada pode amputar-se para ser criança outra vez. Obrigatório inventar, a todo o momento, novas formas de compassar um pé frente ao outro e erguer cidades com gente, muita gente, casas, de quando em quando cães e flores e todo o labirinto é quase um carrossel sem fim. Sem princípio. Só tempo. Esse, que inunda tudo o que é. Lembro. Lembro com a densidade igual à de uma nuvem de verão quando cruza uma e outra e se desapegam pelo céu. A mesma densidade da mancha de vapor que sai do corpo e fica no vidro quando os lábios quase articulam o suspiro do adeus junto a uma janela, e a vida passa. Anos. Cresce-se para cima e fica o cérebro cada vez mais longe da raiz das coisas. Lá em cima ouço-o pensar “eu vi”. Eu vi. O rosto olhando uma, duas, todas as pedras que se organizam em sítios onde ainda por os pés."

Texto de Filipa Godinho.

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